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Christine Zurbach: a prof. que veio de Estrasburgo para Évora por amor e onde ficou 30 anos a ensinar artes (c/som)

Regional 29 Nov. 2021

Professora Catedrática da Escola de Artes, da Universidade de Évora, que ajudou a fundar e onde lecionou nas áreas de Estudos Teatrais, Literatura e dos Estudos de Tradução, Christine Zurbach proferiu, no passado dia 23 de novembro, a sua última lição, por ocasião da sua jubilação. 

A Rádio Campanário entrevistou a professora cuja ligação à Universidade de Évora se estende desde 1975, enquanto docente e investigadora. Aí, no Departamento de Línguas e Literaturas, foi responsável pela criação do Mestrado em Literaturas e Poéticas Comparadas e diretora de curso de 1999 a 2001. Foi ainda responsável pela Licenciatura em Tradução, na variante Inglês/Francês e diretora do mesmo entre 2002 a 2007.

Licenciada em Lettres Moderne, pela Université de Strasbourg, em 1975, prosseguiu a sua formação com um mestrado em Literatura Francesa, que terminou no ano de 1992, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e doutorou-se, em 1997, em Literatura Comparada / Estudos de Tradução com a tese Tradução e Prática do Teatro em Portugal de 1975 a 1988

Questionada sobre os caminhos que a trouxeram até ao Alentejo, Christine Zurbach começou por explicar que “a razão que me trouxe até aqui a Évora, mas ao mesmo tempo também tem a ver com o teatro, é uma questão íntima e pessoal”.

“Quando era estudante em Estrasburgo, estudava literatura, maioritariamente questões ligadas ao teatro e conheci um jovem português, com quem consegui partilhar esse gosto, esta paixão pelo teatro, ele era aluno do Teatro Nacional de Estrasburgo, como Bolseiro da Gulbenkian” e “foi essa partilha, essa paixão comum do teatro, mas não só, porque nos apaixonámos”.

Assim, “vim para Évora em 1975, na altura em que ele voltou para Portugal”. Além de um caso de amor, uma oportunidade, explica, pois “ao mesmo tempo, tinha havido a partir de janeiro de 1975, condições que tinham sido criadas para se refazer no Teatro Garcia Rezende uma programação teatral profissional”. Um projeto ao qual “essa pessoa, que depois foi meu marido, ficou logo de início ligado e envolvido nesse grande projeto, que era o chamado Centro Cultural de Évora, hoje chamado CENDREV”.

Questionada sobre o cenário artístico de Évora, Christine Zurbach explica que “na altura em que a Universidade me convida, depois de ter convidado para dar aulas de francês, o que fiz durante alguns anos, desde que me convidou para fazer parte do grupo de criação do ensino das artes e especificamente do teatro, existia na região uma dinâmica e uma realidade, não só da vida teatral, mas também de todas as artes”, referindo-se ao final da década de 1980 e início dos anos 1990.

Assim, “quando o reitor Jorge Araújo decide lançar o projeto do que hoje é a Escola de Artes, temos aqui em Évora, na região e talvez no país, um contexto muito estimulante para poder ir fazer o que, se calhar pode parecer muito ousado, que foi criar o ensino das artes”, isto “numa universidade voltada para outro tipo de áreas mais convencionais”.

De lá para cá, passados 30 anos, “atualmente as coisas mudaram muito”, explica, referindo que “esta dinâmica que estava a falar, era refletida na quantidade enorme de acontecimentos, de agentes culturais, de facto era notável verificar como de facto as artes estavam presentes a todo o momento numa cidade Património Mundial”, salienta.

Foi também nessa época e “nesse quadro que nos anos 80 se salvaguardou o património dos Bonecos de Santo Aleixo”, que foi reavivado e reintroduzido na vida cultural da cidade e do país. Christine Zurbach diz que “era uma forma de teatro considerada normalmente como sem grande valor artístico, mas foi o contrário, esse estado de espírito relativamente às artes abrange tudo que eram práticas artísticas, como por exemplo o teatro amador”, que naquela época “tinha uma dimensão muito importante” em Évora.

Sobre o Futuro, refere que “não posso dizer, em termos de futuro, o que se pode prever”. Ainda assim, “o que eu penso é que o contributo da Escola de Artes, dos alunos que formamos, do corpo docente que os acompanha, é um aspeto extremamente positivo”, aponta.

Nesse sentido, explica que “continua a haver essa vida artística, cultural, com mais dificuldades, mas com talvez formas novas, que também são exploradas na forma de ensino, que é o nosso”, ao mesmo tempo que “o que vejo em termos de música, artes plásticas, design, teatro, arquitetura, mostra bem os nossos alunos têm uma grande vontade virar artistas” e “produzir no campo artístico”. Seja, “localmente ou regionalmente, ou mais ampliado ao nível nacional”.

Para Christine Zurbach, esses alunos “contribuem, de facto, de uma forma muito dinâmica para a programa do que podemos ter aqui”.

Sobre o tema da sua última aula, que decorreu no átrio do Colégio dos Leões, intitulada “Do Texto e do Palco: Uma Conversa Inacabada”, a professora agora jubilada, explica que após uma ponderação “pareceu-me que o inacabamento era natural, porque deixei muitas coisas que vão aparecer no ensino de quem vem a seguir a mim”.

Assim, “significa por um lado, que as coisas ainda não terminaram, porque elas em si estão vivas”, ao mesmo tempo que “podemos ter formas de arte que desaparecem, que perdem público, que perdem vitalidade, que perdem pertinência”, também “podemos ter outras que nascem”. Comparando, desta forma as artes à “própria vida”.

Porém, “esse inacabamento, quer dizer para mim, que não vou terminar, não vou deixar de investigar e produzir ainda” mais trabalhos relacionados com “as questões ligadas ao teatro”. Um “interesse que não vai desaparecer porque deixei de lecionar”.

Por isso mesmo “o Centro de História de Arte vai continuar a ter-me como membro e membro ativo, talvez mais do que no passado recente, em que tive muitos cargos”.

Por fim, àqueles que foram seus alunos, no teatro, “eu só posso deixar uma mensagem de grande agradecimento, porque sem eles não existiria”. Uma vez que “todo este trabalho foi feito porque os alunos vieram frequentar o curso, empenharam-se em frequentá-lo com proveito e acho que o interesse era mútuo”.

Já aos que estão interessados nas artes, Christine Zurbach sublinha que “é claro que a Escola de Artes é o local que cada vez mais – com uma direção cuidadosa, prudente, que não promete mundos e fundos e que sabe que é difícil ensinar as artes, com o corpo docente que também o faz com muita dedicação – recomento a esses alunos que venham frequentar a Escola de Artes”.

Pois, “vão encontrar aqui algo curioso, no fundo, que é todas as artes ensinadas dialogam e produzem obras interdisciplinares e que põem em comum competências, saberes, capacidades, talentos e gosto por fazer uma arte que não seja uma arte académica e fechada sobre si mesma”, indica Christine Zurbarch.

A última lição de Christine Zurbach, que decorreu no átrio do Colégio dos Leões, contou numa primeira parte com intervenções de Ana Costa Freitas, Reitora da Universidade de Évora, António Candeias, Vice-Reitor para a Investigação e Desenvolvimento, Ana Telles, Diretora da Escola de Artes, Paulo Simões Rodrigues, Diretor do Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA) e José Alberto Machado, Professor Catedrático do Departamento de História.

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